terça-feira, 6 de maio de 2014

De cabeça para baixo

Eu me achava sem paciência
Eu gostava de dormir
Eu não sabia gritar
Eu era infalível
Eu acreditava que não tinha tempo
Eu colocava a comida na boca, mastigava e deglutia
Eu fazia yoga
Quando estava sem tempo, o jantar era miojo
Eu escolhia a estação de rádio
Eu retornava as ligações 
Eu carregava uma bolsa leve
Eu fazia happy hours
Eu chegava em casa e curtia o silêncio 
Eu achava que o cúmulo da preguiça era tirar a maquiagem depois de uma festa
Eu tomava banho de porta fechada
Eu tinha uma casa arrumada
Eu achava que puerpério fosse uma espécie de molusco
Eu não comia alimentos babados
Eu usava brincos compridos
Não sabia de cor o número de telefone de nenhum médico
Eu ouvia um choro em local público e permanecia sentada
Eu escolhia o restaurante independente se ele tivesse batata frita.
Daí eu tive filhos
O molusco virou caos. O yoga, colo. O miojo, feijão. O banho, público. A batata, gourmet
A vida virou de cabeça para baixo
E assim ela passou a fazer todo sentido.







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