quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Passaporte marciano

PASSAPORTE MARCIANO

Esta semana acontecem os festejos da semana Farroupilha no Rio Grande do Sul e coincidentemente, planejei passar os últimos dias em São Paulo. Que me desculpem os adeptos ao fogo de chão, mas uma pizza assada em forno a lenha veio bem a calhar. Explico.
Eu mudei apenas de estado e tento ao máximo adaptar-me à cultura local. Mas se a regra de etiqueta manda que em Roma, façamos como os romanos, a vida prática atesta: em Roma, você jamais passará de um marciano. Adoro o sul, mas nunca consegui emocionar-me com a chama crioula ou com a possibilidade de ver meus filhos pilchados. Sou uma pessoa com sotaque, o que atesta: 'tu não és daqui'. Não. Tenho casa, amigos e referências, mas não sou de lá.
Com profusão de mães orgulhosas postando fotos de suas filhas vestidas de prenda, lembrei de uma brasileira na Alemanha comentando estes dias que não conhece as cantigas de roda que sua filha, nascida do lado de lá do oceano, pede que ela cante. Não importa se mudou de país, estado ou bairro, você ganha status de marciano.
Acontece que em sua terra natal, você deixou de ter casa. E a culpa não é (só) das exorbitantes cifras imobiliárias. Seu lar mudou de endereço, seus amigos tem muitos novos amigos, além de filhos cujo nome você esquece e lá você também passa a ter sotaque. 'Você não é daqui'. Sou, sim. 'Estranho'. 
Mas antes que tu, você ou you limpe sua primeira lágrima, vou esclarecer o teor do texto: 
Que maravilha!
Passado o choque inicial de não poder frequentar a mesma padaria que sua família frequenta há cinco gerações, perde-se um pouco as amarras. Vou comer pizza porque não gosto de churrasco no espeto, mas depois volto, porque a Marginal está com um fluxo terrível. Sou daqui e de lá, além de que amanhã, posso estar acolá. 
Se eu prefiro São Paulo ou o Rio Grande do Sul? Escolho o sul. Mas tenho passaporte de marciano.
Afinal de contas, o mundo está cheio de padarias. E sotaque eu já tenho.


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