Vidros fechados, atenta ao retrovisor, na contagem regressiva para a luz verde do farol. Estaria mentindo se dissesse que suava frio, mas tenho uma dose cavalar de neura no trânsito da cidade.
Um ambulante descia a rua, esperançoso, cheio de bandeiras verde amarelas. Cheio. Em anos anteriores, ele deve ter faturado alto, mas agora torço para que tenha feito um planejamento de estoque baixo.
- Não, obrigada
E ele continuou rua abaixo.
Acabei de voltar de uma curta temporada no exterior e tento, ainda sem sucesso, me readaptar ao fato de viver no Brasil. Peço desculpas ao de coração 'brasileiro com muito orgulho com muito amor', mas como o país ainda é democrático, uso dessa premissa para fazer constar minha opinião.
Nunca cantei o hino com a mão no coração, apesar de ser bem grata ao país que recebeu e deu oportunidades aos meus antepassados. Sou brasileira recente, terceira geração. Mas também sou meio francesa, meio grega, meio russa, meio polonesa, meio sérvia. Coisas de povo nômade. E já gostei de viver aqui, inclusive quando hasteei a bandeira ao marido, que no começo da vida a dois queria sair mundo afora, bradando: "que loucura querer morar em outro país, longe de tudo e de todos, como estrangeiro". Se arrependimento de blá, blá, blá matasse...
Então mudamos de estado. Pronto, um lugar bacaninha, menos violência, menos trânsito. Perfeito. Construímos uma casa, tivemos dois filhos, plantamos árvores, fincamos raízes, este ano o trânsito aumentou, roubaram o carro da fulana, cuidado que estão assaltando no farol, mataram o sicrano, todo mundo já esqueceu, reza antes de sair de casa. Que merda!
Daí você sai desse lamaçal todo, em férias, rumo a país de primeiro mundo e na volta, acaba de se desiludir por completo. Só que hoje, já não basta arrumar a mala e sair mundo afora, pro que der e vier, pois 'na rua, na chuva, na fazenda' foi coisa pros vinte e poucos anos. Lá se foi uma década. E como a rotina não poupa ninguém, bola pra frente passar os dias num jogo do contente bem ordinário.
Agora, só pra constar: de tudo, tudinho, sabe o que me faz invejar demais os gringos? Fora a economia planejada, fora os impostos dentro de um padrão de normalidade, fora os mesmos retornarem como benefícios à população, fora não existir o PT, fora a ditadura ser uma realidade distante, fora o capitalismo ser mais valorizado que o populismo, fora uma engenharia de trânsito decente, fora o planejamento a longo prazo, fora tudo isso? Bem, foi estarmos no carro com as crianças às onze e meia da noite e meu marido ao volante, parado no farol, bocejar.
Quer luxo maior que esse? Bocejar, às onze e meia da noite, parado no farol? Imagina só...
Mas vamos levando, afinal de contas, #vaitercopa.
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