No dia do nosso casamento, eu disse que pertencia a você, assim como você, pertencia a mim. Em casamentos judaicos, essa é a prédica no momento da troca de alianças e naquele instante, eu olhei nos seus olhos. Ali, eu te escolhi.
Seria perfeito, se não houvesse um porém: você não pertence a mim. E da mesma forma, eu não pertenço a você. Eu te escolhi.
Quando o vi pela a primeira vez, meu coração afundou, minha perna tremeu e eu te escolhi. Naquela noite em que não ouvimos os fogos de artifício, eu te escolhi. Quando chorei incontáveis semanas por sua ausência, eu te escolhi. Quando eu estava com outra pessoa, pensando em você, eu te escolhi. Quando sem querer perder mais tempo, liguei te convidando para sair, você lembra, né? Eu te escolhi.
Eu não tinha vinte anos, assistia Dawson's Creek, tinha pijama com cara de urso e uma insegurança do tamanho do mundo. E você me abraçou. Por isso, eu te escolhi. Você rodou o mundo, dormiu no chão na Índia e mochilou até o Himalaia. Eu queria ter sido hippie, mas nunca fui. Por admiração, te escolhi.
Com você, mudei de estado, me arrependi e chorei trezentos e sessenta e cinco dias seguidos. Você me compreendeu em todos eles e de novo, eu te escolhi.
Sei que prefere ficar em casa, ficção científica, Frank Herbert e Bucowski. Eu prefiro sair, drama, Antônio Prata e Luis Fernando Veríssimo. O que seria do amarelo se todos gostassem de vermelho? Te escolhi.
Você encontra-se na bagunça, eu tenho obsessão por organização. Não, nesses momentos eu não te escolho. E não te escolho em muitos outros. Às vezes, tenho vontade de jogar uma daquelas cadeiras pesadas da sala em sua direção. Principalmente quando age com a cabeça dura ou resolve falar alto demais para os padrões de uma mulher que foi criada sem homens em casa. Ah, e quando eu - também cabeça dura - ignoro o mundo, quebro a cara e você aparece com "eu disse...". Então, eu não te escolho. Por algumas horas. Depois eu choro, porque na verdade, fico com saudades, lembrando que te escolhi.
Por você ser a pessoa mais inteligente que eu já conheci. Por não precisarmos fingir: eu durmo de meias, durmo no meio dos seus filmes preferidos e durmo durante as conversas noturnas. Porque com você, o silêncio não é inoportuno. Porque temos liberdade de falar sobre qualquer assunto. Porque já passamos juntos por momentos espetaculares. Porque já passamos juntos por momentos terríveis. Porque você compra as minhas brigas. Porque seus olhos mudam de acordo com seu humor. E porque, mesmo a cor dos meus não mudando, você sabe reconhecer os dias em que eu não quero falar. Porque você prefere meu cabelo do jeito que ele é, meu corpo do jeito que ele é e a Nurit do jeito que ela é. Eu te escolhi.
Nos próximos dias, serão onze anos desde o dia em que eu disse que nós pertencíamos um ao outro. Eu não te pertenço, mas te escolho todos os dias da minha vida.
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