- E então, o que você quer ser quando crescer?
A pergunta foi feita no final da década de oitenta e eu, antes mesmo de completar uma década, tinha uma ótima idéia:
- Cozinheira!
Numa época em que a profissão estava mais para Amélia do que para chef de cozinha - que só entrou em vigor anos mais tarde - meu avô, pálido de susto, tentou corrigir com um "não, dentista", mas já era tarde e lá estava minha caricatura como cozinheira, até com um cãozinho atrás do fogão, ansioso pelo resultado. Se o reconfortasse, também poderia ter dito que queria ser professora, profissional do Banco de Sangue e trabalhar de tailleur, mas acredito que ele teria insistido na odontologia, profissão de gerações na família.
Pulamos para noventa e sete. Estava acabando o ensino médio e precisava escolher uma profissão para imediatamente passar no vestibular, afinal de contas, alguém decidiu que dezessete anos é uma idade madura o suficiente para tal. Agora eu estava na dúvida entre arquitetura, psicologia e terapia ocupacional - tinha tido a confirmação de que odontologia não era para mim quando minha mãe, dentista, me levou para acompanhá-la numa sessão de canal e o paciente abriu a boca. Fui então encaminhada a um teste vocacional para, após algumas sessões, sair com uma certeza: a de que estava apaixonada por meu colega loiro e alto que queria ser engenheiro. A tal maturidade dos dezessete. Além disso, estava muito inclinada a ser hippie e pensava seriamente em trabalhar com aromaterapia.
Mas o vestibular estava lá e, no dia de assinalar a escolha na Fuvest, já desestimulada ao extremo com relação à aromaterapia, achei que poderia ser bacana atuar com... publicidade. Foi com este método planejado que escolhi minha profissão. Entrei na faculdade, ainda com o tal dos dezessete e então começaram os quatro anos mais divertidos da minha vida. Filosofia, sociologia, antropologia e o Dadá, bar em frente à faculdade, tudo decisivo para abrir a cabeça de quem passara a vida em colégios ultra tradicionais. Já no primeiro ano, comecei a estagiar na área de marketing, consolidando o fato de que seria uma publicitária que nunca publicitou, para a sorte da minha vida pessoal.
No final da faculdade, prestes a ser efetivada e para o completo desespero do meu pai, pedi demissão da multinacional em que trabalhava e fui fazer produção executiva de uma peça de teatro chamada 'Sexo Oral'. Não era pornográfica, mas definitivamente eu perdia muito tempo explicando isso às empresas. Não deu certo, mas garanti a piada vitalícia para algumas pessoas da família.
Voltei pro marketing, casei, mudei e comecei a pagar minhas contas. Hora de sossegar. Fiz um MBA, tinha um emprego legal e zero tempo para sequer, consertar o microondas que passou meses e meses quebrado na prateleira. Não, assim não dava. Mudei de novo e agora era gerente de vendas e representante comercial. Amar, nunca amei, mas trabalhava para a marca que mais adoro neste mundo e era dona do meu tempo. Tudo ótimo. Tomei chimarrão em todas as lojas de lingerie do Rio Grande do Sul, aprendi a tomar chá de cadeira, porta na cara e todas as noções básicas de humildade. Foi quando eu engravidei e planejei meu retorno profissional quatro meses após o parto. Depois, após sete. Depois não voltei e inaugurei um período em que planejamento, seria dançar conforme a música.
Por dois anos, fui uma feliz mãe em turno integral, período em que acreditava que aflorariam todos os hobbies, vocações e inspirações empreendedoras. Por dois anos, não tive tempo para absolutamente nada e mal acreditava que, alguns anos atrás, com tanto tempo livre, eu não conseguia consertar um microondas. Basicamente comemorava os dias em que conseguia pentear os cabelos antes do meio dia, quebrando de vez o mito da dondoca que não trabalha. Mas quando notei que considerava a visita de rotina à pediatra o assunto destaque da semana, decidi que era hora de voltar ao mercado. Filhos devidamente na escola e abri minha empresa. Pronto, eu me encontrei. Vesti a camisa, me orgulhei e, por um misto de questões pessoais, tive que fechá-la um tempo depois. Inspira, expira, não pira. Agora, sigo com dois projetos solo, além de ser uma aspirante a escritora. Minha especialidade anda sendo tirar idéias do papel.
E nesta trajetória eclética, lembro da pergunta do caricaturista em oitenta e nove e penso que deveria ter respondido:
- Ih, moço... Como está seu estoque de papel?
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