Foi só entrarem no carro:
- Você notou?
- Notei o que?
- Francisco, você me chamou onze vezes durante o aniversário. "Rose, o Rafa caiu", "Rose, o Rafa quer fazer xixi", "Rose, o Rafa pegou o brigadeiro do chão". Custava ter interrompido sua conversa com os outros homens e me ajudado? É sempre assim.
- Rose, eu mal te chamei. Você passou a festa a postos, pronta para qualquer intercorrência
- Claro, que outra alternativa eu tenho?
- Como assim?
- Passo a vida cuidando, não tenho mais tempo algum para mim. Quando estou ausente, o mundo desaba.
- Ah é? Pois vamos ver.
Francisco - indignado, ferido, receoso, em pânico - sugeriu que ela fizesse um longo programa no sábado seguinte "Se o problema é esse, saia, sem medo de ser feliz".
Rose - aliviada, desafiadora, receosa, em pânico - acenou concordando.
Mesmo com o pesar de utilizar o filho como cobaia para a aplicação prática do instinto paterno de Francisco, Rose agendou, pé, mão, corte, luzes, massagem, máscara facial, almoço, chá da tarde, cinema, happy hoje, sarau. Divertiu-se de forma inusitada e voltou para casa levemente bêbada, cantarolando a música da borboletinha.
Ao colocar a chave na porta, inspirou, antecipando o triunfo. Três, dois, um. Silêncio. Como ninguém vinha recebê-la, entrou a procura da família. Almofadas no chão e poltronas do avesso anunciavam a tragédia.
- Olá?
- Oi amor - Francisco apareceu com Rafa no colo, corado e sorridente
Uma onda de alívio percorreu seu corpo. Sobreviveram.
- Como foi?
- Tudo tranquilo. Pedimos pizza, brincamos...
E Francisco descreveu um dia comum. Sem loucuras extraordinárias, apesar de estarem descabelados. Sem nutrientes, apesar de estarem rechonchudos. Sem agasalho, apesar da temperatura de outono. De fato Rose surpreendeu-se com o sucesso da operação. Independente da falta de ordem, da sopinha de legumes e da roupa apropriada, lá estavam eles. Bem. Felizes. Exaustos. Sorridentes. Independentes. Finalmente ela poderia seguir adiante, sem ser essencial para o funcionamento do lar. Finalmente! Ahã. Ótimo. Tá. E agora?
- Ah, Francisco! Fraldas abertas no lixo da pia? Francamente. Entende o que eu vivo dizendo?
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