segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Terapia de casal

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida"
(Vinicius de Moraes)

- Boa tarde, eu sou a Dra. Clarissa.
- Olá, Fernanda.
- Prazer, Fábio.
- Por favor, sentem-se. Falem um pouco sobre vocês, o que os trouxe para a terapia?
- Na verdade, eu amo a Fê. Por mim, nem precisaríamos estar aqui.
- Eu adoro o Fá, temos uma boa relação
- É...
- Estamos juntos há cinco anos
- É...
- Fala também, Fábio. Só eu falo?
- Quem quis vir aqui? Hein? Hein?
- Mas você aceitou.
- Por não aguentar mais escutar reclamações.
- Viu Dra. Clarissa? Como você pode começar a notar, ele gosta de minar minha auto-estima.
- Mas ela vive reclamando. Eu não mino sua auto-estima, apenas sou sincero.
- Então porque não usa sua sinceridade para assumir que não me ama mais?
- Amo sim, mas...
- Mas?
- Não quero ter filhos agora. Ponto.
- Quando você quer? Quando eu tiver cinquenta anos?
- Eu preciso de um tempo. Quero avançar na carreira primeiro, me estabilizar...
- E o meu relógio biológico? Ah, esquece, não faz parte de sua planilha...
- Dra. Clarissa, ela acha que por eu não querer filhos agora, não a amo
- E não é? E não é?
- Não!
- Tudo tem que ser do seu jeito, Fábio.
- Não é hora, Fernanda.
- Então faz um favor, pegue esta planilha onde você projeta cada passo da sua vida, suas roupas, sua escova de dentes e saia do meu lado de uma vez por todas!
A sessão acabou. Acertaram o valor e agendaram outro horário, embora ambos insistissem que não haveria próxima vez. Saíram porta afora, seguindo caminhos distintos.
Fábio ainda olhou para trás, a tempo de ver Fernanda firme em sua opinião, caminhando decidida. Era final do dia. E ela virou de volta para ele. 
No mês seguinte, estava grávida. 
Para Dra. Clarissa, voltaram apenas para explicar:
- Não era hora. Segundo minha projeção, seria para daqui a uns três anos. E sou muito racional, extremamente firme em meus argumentos.
- E o que o fez mudar de idéia?
- Os olhos dela. Ele brilham quando cai o sol.














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