Já deve ter acontecido com você: o súbito momento em que percebe, para o bem do seu microcosmo, fingir. Fingir achar uma piada engraçada, fingir que seu emprego te completa, fingir não sentir falta do descompromisso, fingir se identificar com aquele grupo de amigos, fingir amar outra pessoa. Fingir amar. Parece forte, mas além da conotação catastrófica, engloba situações em que você mal se dá conta que entrou no módulo automático de adequação protocolar ou que a mistura ímpeto-hormonal gera uma explosão finita facilmente confundida com amor.
Aconteceu comigo há alguns anos, quando acordei com o barulho do mar, numa cama de casal desfeita.
- Onde estou?
- Em Maresias
- Isso eu sei
- Foi você quem perguntou
O que eu queria mesmo, era saber como aquela pessoa - que não era eu - tinha ido parar ali
- Viajamos durante a noite. Pronta para sair?
- Sair? Hoje é sábado, são sete horas da manhã...
- E as ondas estão perfeitas
Céus! Eu nunca gostei de praia. A paisagem é linda e tal, mas tenho aflição do barulho que surge da fricção dos pés na areia e a água do mar deixa o corpo grudento. Dois dias por ano sentindo a brisa oceânica e considero a meta como cumprida, pelo bem da vitamina D. E agora lá estava eu, num superávit impensável, passando mais de cem dias por ano em paraísos litorâneos, acordando antes do meio dia aos finais de semana e entendendo sobre métrica de ondas.
- Com o perdão do trocadilho, esta não é minha praia
- Começou...
- Está vendo a cor da minha pele? De tão branca, é possível acompanhar ao vivo o percurso completo da artéria aorta
- Ótimo, bronzeie-se
- Eu não quero me bronzear. Eu quero passar um final de semana no campo, deitada numa rede, jantando calorias ao invés de complementos nutricionais
- Vamos para a praia. Você pode fica deitada na areia lendo seus livros, sem sociabilizar com as outras mulheres, como, aliás, sempre faz
- Eu gostaria de sociabilizar com os meus amigos, que estão a kilometros de distância, conversando sobre qualquer outro assunto que não inclua a palavra mar
- Eu achei que você adorasse essa vibe
- Achou? Ou nunca se importou?
- O que você quer que eu faça?
- Faça parte da minha vida
- Eu não pedi para você abdicar dela
Arrumei a cama, a mala e o rosto, inchado como o de quem chora no cinema, por uma história que não lhe pertence. Mais uns dias e arquivei a história numa caixa de sapatos.
Reprogramei meu roteiro.
Acabou. Por tudo. Porque sim.
E embora muitos insistam que esta não é uma resposta, quando se decide acordar, ela pode ser a melhor delas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário