Existe um universo complexo chamado maternidade. Quem faz parte dele, além de não dormir e achar normal carregar oito brinquedos diariamente na bolsa, passa a integrar um grupo seleto de pessoas que acostumam-se a repetir quase diariamente "ah, agora eu entendo" ou simplesmente "ai", após morder a língua.
Mas como a humanidade adora divisões - capitalista e socialistas, xiitas e sunitas, gremista e colorados, pão francês e cacetinho - a maternidade é fragmentada em dois pólos, altamente divergentes e bélicos: as mães que trabalham fora e as que ficam integralmente com os filhos.
De um lado, elas não querem (ou não podem) abrir mão do salário, do status ou da independência e criticam aquelas dondocas que ignoram um marco histórico, que foi a queima de soutiens. Madrugam e impecáveis, organizam uma logística de guerra para que sua ausência seja pouco sentida. À noite, ainda sobra tempo de dar a sobremesa e contar uma história. Seu trunfo, é dar conta de tudo em meras vinte e quatro horas. Verdadeiras super mulheres.
De outro, elas não querem (ou não podem), abrir mão de cuidar e acompanhar cada detalhe da vida das crias e não conformam-se com aquelas egoístas que abriram mão de um momento único da vida para satisfazerem o ego. Madrugam e descabeladas, iniciam uma rotina insana para que sua presença seja sempre indispensável. Seu trunfo, é poder contar ao pediatra quantas vezes sua filha pisca antes de espirrar. Verdadeiras super mulheres.
A guerra é pesada e inclui olhares enviesados no colégio, comentários ácidos em festas infantis e grupos privados em mídias sociais. O que pouca gente sabe é que no fundo, assim como na política, na religião e no futebol, a maternidade engloba simplesmente uma patota com paixões em comum. Neste caso, a de privilegiadas que conheceram o maior amor do mundo. E - ainda no fundo - uma até admira e sente uma pontada de inveja da outra. Mas isso ninguém admite, para não pegar mal.
Todas choram as dores dos filhos, sabem o horário da última dose do antibiótico, contam histórias, tem beijos mágicos, agasalham em noites frescas, vibram, incentivam, educam, amam e sabem que só quem já sentiu o peso das escolhas feitas, pode fazer parte de um destes pólos bélicos. Quem não é mãe, que escolha outra batalha para julgar.
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