segunda-feira, 7 de abril de 2014

Eram só quinze

Barulho de chaves
- Obrigada por pagar minha fiança, amor
- Catarina, você foi presa por agressão a duas senhoras. Como? Como?
- Eu vou te explicar
- Espero que não culpe os hormônios, senão vou repensar seriamente nosso relacionamento
- Não, não. Foi assim: hoje de manhã eu estava animadíssima ao sair com a Larinha. Aliás, ela está com sua mãe?
- Sim, continue
- Vesti nela a jardineira floral que a tia Lela deu. Troquei as fraldas e a amamentei. Eu tinha três horas inteiras, daria para fazer uma porção de coisas
- Certo
- Então eu preparei a sacola com todos os apetrechos, coloquei a Lara na cadeirinha de segurança, o carrinho no porta-malas e sai. Ainda tinha duas horas e meia
- Tá...
- Cheguei ao café e pedi um descafeinado. Nisso, as caretas da pequena começaram e percebi que precisava trocar sua fralda. Quem me dera. Precisei trocar a fralda, a roupa e, caso tivesse shampoo e sabonete, teria dado um banho por lá mesmo. Bem, por sorte, ainda restou uma folha do lenço umedecido
- Por que?
- Porque em seguida ela regurgitou na minha blusa. Usei a última folhinha do lenço e fiquei com um aroma de lavanda azeda. Mas tudo bem
- Normal
- Normal? Fábio, normal é comer arroz com feijão, é pedir um café e tomar o dito cujo, é acordar e pentear os cabelos antes do meio dia. "Tudo bem" é uma coisa, "normal" é outra
- Olha, ainda estamos na delegacia. Tome um copo d'água
- Certo. Bem. Ainda tinha uma hora e meia. O café estava frio
- E a Lara?
- Com sono. Começou com um choro leve, mas em dois minutos, virou um escândalo. Tentei acalmá-la de todas as formas até que desisti e amamentei novamente, ignorando a mesa com três homens ao lado
- Apareceu algo?
- Não abusa do meu humor...
- Tudo bem, tudo bem
- Em seguida, levantei, paguei a conta e comecei a caminhar, para tentar fazê-la relaxar e dormir
- Certo
- Dei três voltas no quarteirão, mas ela berrava cada vez mais alto. Finalmente, na quinta volta, ela dormiu. Eu ainda tinha quarenta e cinco minutos. Voltei ao café e ao parar o carrinho, ela acordou novamente
- Puxa. Sei bem
- Sabe? Sabe mesmo Fábio?
- Seu guarda...
- Tá, tá, vou relaxar. Então levantei e desta vez, caminhei cerca de quinze quilômetros. Ela dormiu profundamente
- Que bom
- Voltei ao café, sentei, pedi sussurrando um descafeinado e ajustei para mudo o toque do celular. Fiquei admirando a Lara, parecia um anjinho, doce, linda. O pedido chegou. Eu ainda tinha quinze minutos
- Sim
- E foi então que aconteceu
- O que?
- Chegaram duas senhoras
- Tá...
- Falando alto
- E?
- Elas pararam ao lado da Larinha. E fizeram "cuti-cuti-cuti"

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