Bati o carro. Me distraí e bati. Não, eu não estava falando ao celular, apenas pensando na vida. Quer que eu diga mais? Deixa eu ver. Quando eu era mais nova, me imaginava aos trinta anos sempre vestida de tailleur. Eu chegava em casa, com uma pasta preta e o tailleur, para então as crianças e o cachorro virem correndo me abraçar. Portanto, acreditava que seguiria uma carreira executiva. Terminei a faculdade, ingressei numa empresa. Depois em outra e mais outra. Fiz MBA. E cheguei à conclusão que achava chatésima a vida empresarial. Não o trabalho em si, mas a vida regrada. Ou a falta dela.
Então fui atuar com vendas. Amar nunca amei, mas gostava bastante e a rotina ficou mais interessante sendo dona do meu horário. Fora que eu via o dia passar e o intercalava com assuntos pessoais. Cada um sabe das suas prioridades e esse equilíbrio, para mim, é fundamental.
Passou um tempo e as crianças nasceram. Fiquei um período sem trabalhar. Claro que "sem trabalhar" é eufemismo para nunca parar nas vinte e quatro horas do dia, correr feito louca, não receber ordenado algum e ouvir as pessoas perguntarem "você não trabalha?". Foi ótimo sim, fui feliz demais, mas tinha hora para acabar.
E logo em seguida, abri minha empresa, feliz, saltitante, sem lenço e sem documento. Só que com documento, CNPJ, funcionários e impostos. Muitos. Corri, vesti a camisa, amei. Me encontrei. Adorei assinalar "empresária" em fichas cadastrais. Mas por circunstâncias mil, durou pouco. Aprendi demais, mesmo o que jamais repetir. E, além do aprendizado, ficou uma sensação de vazio, de dever não cumprido. E bati o carro. Simples assim.
Agora, projetos não faltam. Às vezes sinto que preciso avisar ao cerebelo "obrigada pelas idéias, mas me deixe descansar aos domingos". E para falar a verdade, estou bem entusiasmada. Acontece que não posso deixar de pensar o que teria acontecido se eu não tivesse fugido da rota estabelecida. Do tailleur, do horário comercial, do vale-refeição.
O que? Se eu ainda tenho o tailleur? Sim, até vesti outro dia. Mas estava apertado. E tinha um furo de traça.
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